Da Itália 🇮🇹 às fazendas de café no Brasil 🇧🇷 : a trajetória dos imigrantes italianos

No final do século XIX, após inúmeras guerras em prol da Unificação Italiana, o país se encontrava com a economia debilitada, com epidemias de doenças (malária, cólera, pelagra), superpopulação concentrada nas cidades e desemprego, além de extrema pobreza e altas taxas cobradas pelo governo da Itália. Os italianos queriam fugir da mortificação da pelagra, das taxas sobre o sal e sobre a moagem do milho, o qual era usado para o preparo da polenta que era a alimentação mais barata na época. A burguesia odiava os camponeses pelo seu fervor religioso e os deixavam à própria sorte. Meeiros, colonos, trabalhadores braçais, viviam sob ameaça de perder a casa e o trabalho.

O movimento de migração na Itália começou por volta de 1860, quando os italianos se mudavam para outros países europeus. Em 1870 uma grande maioria começou a emigrar para os EUA, mas posteriormente os governantes americanos começaram a dificultar a imigração para os EUA, devido ao aumento de problemas causados por este contingente de imigrantes. Assim, seu destino passou a ser o Brasil e Argentina.

Estima-se que de 1870 a 1925 mais de 17 milhões de pessoas deixaram a Itália e se encaminharam para diversos países, espalhando-se pelo mundo. Os seus descendentes (que são aproximadamente 60 milhões!) são mais numerosos que a própria população atual da Itália. Só no Brasil, por exemplo, são mais de 25 milhões de descendentes. Mas quando se fala de imigração muitos ainda se perguntam: por que alguém deixaria seu país, sua cidade de origem, e cruzaria o mar rumo a um destino desconhecido e incerto?

A explicação é unânime na maioria dos livros e documentos que tratam deste assunto: a fome. No caso da Itália, a guerra e a unificação deixou um legado de pobreza. O serviço militar era obrigatório por três anos e retirava os homens do grupo familiar, anulando uma importante força de trabalho. A situação da Itália em meados de 1861 era péssima: se a população não morria de fome, padecia com a cólera, a malária e a pelagra.

No Vêneto, região localizada no norte da Itália e de economia tradicionalmente agrícola, os problemas eram muitos. Em 1882 um inverno muito rigoroso destruiu a produção das videiras e da forragem (necessário para a alimentação de animais nos países em que há neve) e nos anos seguintes a seca se instala e aumenta ainda mais o desespero da população já que torna a produção de alimentos quase que inviável. Taxas abusivas cobradas sobre o sal e sobre o milho com o qual se fazia a polenta – principal alimento e o mais barato da época – também castigava aqueles que tinham quase nada.

 

Correlação histórica com o Brasil

Se na Itália a situação andava de mal a pior, no Brasil, a economia experimentava um momento de expansão ocasionado pelo crescimento do comércio internacional de café. Mas, à medida que os movimentos abolicionistas tomavam corpo e tornavam-se mais fortes, cresciam também as preocupações com a manutenção das lavouras daquele precioso grão, já que o Brasil era totalmente dependente da mão-de-obra escrava. Neste período iniciam-se as discussões sobre a vinda de imigrantes para o Brasil e, a partir de 1870, com a introdução da mão-de-obra assalariada, a imigração, que antes era apenas uma opção, torna-se uma necessidade.A proibição do tráfico de escravos (1850), a Lei do Ventre Livre e a Lei dos Sexagenários (1885) culminaram com a abolição da escravatura (1888) e provocaram a criação de uma política de incentivo à imigração.

A autoridade para trazer imigrantes, antes sob controle do Governo Imperial, é delegada aos estados, à época chamados de províncias. A província de São Paulo, por exemplo, estabeleceu sua própria política de imigração. Os fazendeiros paulistas uniram-se e fundaram, em 1886, a Sociedade Promotora da Imigração, que se tornou responsável, pelo incentivo da vinda de imigrantes da Europa e da Ásia. Para isto, foi feita uma propaganda maciça, onde o Brasil era mostrado como um paraíso, uma terra de possibilidades (vide imagem).

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Panfletos em prol da imigração: “Terras no Brasil para os Italianos. Navios partindo toda semana do Porto de Gênova. Venham construir os seus sonhos com a família. Um país de oportunidades. Clima tropical e abundância. Riquezas minerais. No Brasil vocês poderão ter o seu castelo. O Governo dá terras e ferramentas para todos”. 

Entretanto, o processo de imigração não era tão simples assim. Havia muitas exigências e àqueles que decidissem trocar o Velho pelo Novo Continente. Passaporte para toda família, vacinas, entre outros requisitos obrigatórios. Antes de deixar a Itália, os imigrantes se preparavam durante meses e vendiam tudo o que não poderiam levar consigo. As roupas, objetos de uso pessoal e ferramentas eram acondicionados em grandes caixas de madeira, baús, arcas ou mesmo sacos. No dia da partida, era obrigatória a última visita ao cemitério, onde eles se despediam de seus pais e familiares. Visitavam também o pároco, do qual pediam a benção para afrontarem a longa travessia. A despedida era sempre banhada em lágrimas. Muitos deles nunca mais veriam o paese (pequena cidade) onde nasceram e do qual partiriam para a estação estação ferroviária mais próxima e, junto com tantos outros que lá se encontravam, seguiriam para o porto de Gênova, um dos principais portos de onde os imigrantes saíam.

Cada estação na qual que o trem parava a cena era a mesma: dezenas de homens, mulheres e crianças, subindo nos vagões carregados de bagagens. Após esta viagem rumo ao porto, deixariam a terra firme e atravessariam o mar em busca de uma vida melhor.

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Ferrovias italianas no período de 1961 a 1920, por onde as famílias passavam antes de chegarem aos portos e partirem para a América. 

Rumo à América

Ao chegarem ao Porto de Gênova, quase sempre, os imigrantes deviam esperar alguns dias, às vezes algumas semanas, pela partida do vapor que os levaria para a tão sonhada terra – a prometida América. Durante o período de espera da partida, muitos deles se viam desamparados e eram submetidos à toda sorte de provações, vendo muitas vezes, os seus poucos recursos economizados terminarem.

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Panorama do porto de Gênova, de onde os vapores partiam.

Roubos de passaportes, dinheiro e bagagens eram constantes. Os preços dos alimentos e dos albergues na área do porto eram inflacionados por comerciantes desonestos. A espera neste local era um prenúncio das dificuldades que ainda viriam após a viagem que poderia durar quase dois meses. Os candidatos à imigração que não preenchiam os requisitos exigidos pelo Governo eram barrados na hora da partida e permaneciam ali mesmo presos à terra que tanto os castigava.

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Posto de embarque de imigrantes italianos do Porto de Gênova. 

Durante os últimos anos da década de 1880, agentes do Brasil pululavam em Veneza e outras partes do Vale do Pó, estimulando “uma espécie de febre”, que levaria inúmeros trabalhadores agrícolas a partirem para o Brasil, “na esperança de lá encontrarem a terra prometida”, como escreveram os funcionários italianos de Treviso.

Alguns desses italianos até viajavam a pé, cruzando a maior parte do norte da Itália sob um rigoroso inverno, para tomar os navios que em Gênova prometiam passagem gratuita para Santos, um dos que mais receberam imigrantes. Mas o destino a que os imigrantes estavam fadados no Brasil era tão sombrio quanto este que eles estavam deixando para trás. Eles eram trazidos ao Brasil para um único propósito: fornecer mão-de-obra barata para as fazendas de café.

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Desembarque dos imigrantes no Porto de Santos. Foto: Acervo do Memorial do Imigrante. 

Desembarque no Brasil: percurso de Santos às lavouras de café

Os imigrantes chegavam sem saber o que iriam encontrar. Depois de enfrentar até 60 dias nos porões de um navio a caminho de uma terra estranha, o alívio só era sentido no momento do desembarque. Mas esta sensação iam desaparecendo no instante em que eles avistavam uma imensa muralha verde que mais parecia intransponível: a Serra do Mar. Aquela viagem rumo à Hospedaria de Imigrantes na capital ficaria marcada na memória de muitos imigrantes.

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Trecho ferroviário na Serra do Mar. Imagem: Cartão postal do acervo do professor e pesquisador santista Francisco Carballa. A São Paulo Railway Company (SPR) foi a primeira ferrovia construída em São Paulo e a segunda do Brasil. Financiada com capital inglês, sua construção teve início em 1860 e enfrentou muitas dificuldades técnicas durante sua implantação, principalmente no trecho da Serra do Mar, que aparece nesta imagem. Sua inauguração ocorreu em 1867. A ferrovia, com 159 km de extensão, ligava o município de Santos ao de Jundiaí, tendo como ponto de passagem a cidade de São Paulo. Ela também cruzava os municípios de Cubatão, Santo André (Paranapiacaba), Rio Grande da Serra, Ribeirão Pires, Mauá, novamente Santo André (área central) e São Caetano do Sul, até chegar à capital paulista. 

Quando o trem iniciava seu trajeto de subida, os italianos tinham a impressão de estar em plena selva. A Mata Atlântica era tão densa e causava tanto pavor que, não raro, muitos deles se jogavam pela janela na tentativa de retornar a Santos. Eles não acreditavam que era possível haver cidade no meio de tanto mato. Após vários incidentes, a São Paulo Railway passou a travar os vidros do comboio. Vencido o susto do primeiro contato, muitos desembarcavam na estação da hospedaria.

A Hospedaria dos Imigrantes, onde atualmente funciona o Memorial do Imigrante, era um enorme conjunto de prédios destinado a abrigar os recém-chegados nos seus primeiros dias em São Paulo. Após a cansativa viagem, os imigrantes ficavam até oito dias no local, período no qual também acertavam seus contratos de trabalho e definiam qual seria o próximo destino.

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Hospedaria dos Imigrantes em São Paulo.

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Muitos já vinham da Itália com contrato de trabalho previamente acertado com os barões do café. Não raro, algumas famílias já vinham para o Brasil com toda viagem paga pelos fazendeiros que em troca exigiam um período de trabalho não remunerado.

São Paulo foi, de longe o destino que mais atraiu imigrantes. Dos 4,5 milhões que chegaram ao Brasil, cerca de 3 milhões desembarcaram em Santos e fizeram o trajeto acima relatado e partiram da capital ao interior do estado na esperança de, ao colher os grãos, colher para si um pouco da riqueza do café. Uma pequena parte destes imigrantes, no entanto, não seguiram para as fazenda mas preferiram permanecer na capital, daí o surgimento de bairros nos quais a presença de estrangeiros era marcante, como Bom Retiro, Brás, Bexiga e Barra Funda.

Os fazendeiros preferiam contratar famílias devido à organização de produção e as jornadas de trabalho eram de 10 a 14 horas diárias. Enquanto os homens faziam o trabalho mais pesado, as mulheres ficavam responsáveis por cuidar dos animais, da horta e da colheita e as crianças ajudavam na beneficiação do café.

A vida dos primeiros imigrantes, chamados pelos fazendeiros de colonos, era muito difícil. Em algumas fazendas eles trabalhavam lado a lado com os escravos e sofriam pressões e maus tratos semelhantes. Alguns fazendeiros tentaram até instalar os recém-chegados nas moradias ocupadas pelos escravos mas com a insistência dos colonos por mudanças em algumas senzalas, elas foram remodeladas ou foram construídas moradias mais afastadas da sede da propriedade rural e com melhor qualidade que a dos cativos.

As fazendas eram um mundo à parte, isoladas por horas, às vezes dias, dos centros urbanos, sem acesso médico, distantes das igrejas, raramente com acesso à escola, tinham que dormir em cima de palha, em casas minúsculas, sem as mínimas condições de higiene, condições de trabalho degradantes e, não raro, abusos por parte do fazendeiro.
Há relatos de rebeliões dos imigrantes, em alguns casos envolvendo colonos que chegavam a assassinar o fazendeiro (o caso mais emblemático foi do fazendeiro Diogo Salles, irmão do presidente Campos Salles, que tentou estuprar a irmã do colono italiano Angelo Longaretti e acabou morto por ele). Mas as revoltas eram exceções, pois os camponeses italianos normalmente agiam de forma apática, pois provinham eles próprios de uma sociedade que via a resignação como uma virtude cristã. Ademais, havia o afluxo contínuo de imigrantes e os trabalhadores descontentes eram prontamente substituídos por outros. Embora os italianos estivessem habituados a levar uma vida de privações em seu país de origem, a vida nas plantações restringia de tal forma a liberdade que se tornava insuportável.
Neste mundo fechado da fazenda, o fazendeiro era o senhor absoluto e impunha leis próprias. Habituado a lidar com escravos, o tratamento despendido aos imigrantes não era muito diferente. Os colonos eram vigiados e tinham seu tempo controlado por capangas, com toques de sino marcando o início e o fim do trabalho. Os abusos se verificavam sobretudo na violência física generalizada, inclusive com uso de chicote, como no tempo da escravidão. Raramente as autoridades puniam os fazendeiros por seus abusos, o que estimulava a manutenção deste comportamento que consistia na aplicação de multas, confisco dos produtos dos colonos, adulteração de pesos e medidas e retenção do salário. Aliás, o endividamento do colono era uma estratégia usada para mantê-lo preso à fazenda e impedir sua saída. Neste caso, apenas restava a fuga como forma de escapar da plantação. De fato, seria muito difícil romper com a mentalidade escravista de forma célere, e isso só ocorreu anos mais tarde.
Fonte: 
Família Pollini
Da Itália ao Brasil
Museu da Imigração do Estado de São Paulo

 

 

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