Preciso falar sobre relacionamentos abusivos e violência doméstica

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Ele era alguns anos mais velhos e inseguro, eu era livre como o vento e cheia de sonhos. Gostávamos das mesmas bandas, quer dizer, quase todas. Nos encontramos pela primeira vez em um show de rock e não foi um caso de amor à primeira vista. Mas, depois de algum tempo trocando recados por meio de nossos amigos em comum, resolvemos assumir aquele relacionamento que, desde sempre, desafiava todas as probabilidades de ter um final feliz.

O problema é que o que começou como uma luta romântica contra as centenas de quilômetros que nos separavam – com telefonemas diários e encontros quase todos os finais de semana – logo se transformou em um verdadeiro inferno. Não importava o que eu fizesse para demonstrar os meus sentimentos e dizer a ele o quanto tudo aquilo era importante para mim, a nossa relação havia se tornado uma paranoia constante. Cinco minutos a mais em um banheiro de restaurante (tempo de retocar um batom), cumprimentar alguém que não pertencia ao nosso círculo de amizades, minutos de atraso para telefonar ou atender o telefone, era motivo suficiente para que a desconfiança (e a truculência) se instalasse. Ele examinava meus passos a todo instante. Tinha “olheiros” por todos os lados e um medo inacreditável de que um dia eu o traísse. Eu examinava minhas ações tentando descobrir onde eu era “toda errada”.

Cansada das brigas vexatórias que estragavam nossos encontros semanais (a esta altura os garçons já fechavam a cara quando nos viam chegar, seja na cidade em que eu vivia, seja na dele) e, acreditando que o motivo de nossos desentendimentos era apenas a distância, resolvi me mudar para a cidade onde ele residia, alugar um pequeno apartamento e transferir meus estudos. A partir desse dia, tudo o que era meu se foi. Deixei meus planos de lado, dei-lhe as chaves de meu coração, o livro dos meus dias, o rosário de minha fé e tudo o que eu tinha mas, claro, isto não bastou. Ele implicava com os meus amigos e dizia que eles só estavam esperando a primeira oportunidade para “me comer“. Enquanto eu tentava manter minha natureza literária e sonhadora em meio ao caos, ele se demonstrava cada vez mais vulgar, como o conhaque ao qual eu havia me acostumado para tentar dormir melhor todas as noites.

Os insultos eram diários e a sua lei era que eu estivesse sempre sozinha. Grupos de estudos com outros estudantes em minha casa? De jeito nenhum. Nem mesmo as minhas amigas eram boa companhia. “O que minha família vai pensar ao te ver andando com essas putas (referindo-se às minhas amigas)?”, “O que meus amigos irão pensar se souber que mulher minha recebe homem (referindo-se aos estudantes do sexo masculino) em casa“. Para evitar as DRs e usufruir do raro prazer dos poucos momentos de paz entre nós, eu apenas abaixava os olhos. Talvez tenha sido naquela época que eu acumulei um monte de lixo emocional que me custou anos de terapia. Estes foram, de longe, os piores anos de minha vida.

Teve uma vez que, sem a menor cerimônia, um de melhores amigos dele meteu a mão em minha perna e colocou-a sobre a sua coxa para examinar de perto uma tatuagem que eu tinha feito alguns anos antes. Senti minha alma gelar. Estávamos todos sentados em uma mesa de bar, bebendo cerveja, esvaziando maços e maços de cigarro, falando sobre a genialidade nossos músicos preferidos quando, de repente, me vi como se fosse um coelho rodeado por uma matilha. Ali, amaldiçoei o fato de ser mulher. Eu queria ser um deles, falar sobre música e me embriagar sem sentir que eu tinha uma arma invisível chamada machismo apontada para minha nuca. Apesar de sentir raiva e vergonha por ter sido tocada sem o menor consentimento – tocada por uma pessoa com a qual eu não tinha nenhuma espécie de intimidade e que eu nunca tinha visto em toda a minha vida a não ser naquele dia – não consegui reagir. Ele permaneceu na mesa, desviando os olhos dos meus e bebericando sua cerveja como se eu fosse invisível. Esperei a tempestade e ela veio sem demora. Ao quinto copo ele fui chamada de vagabunda na frente de qualquer um que quisesse ver e ouvir. No meio da rua. Não havia escolha a não ser sentir o peso daquelas palavras desabar sobre minha cabeça enquanto as pessoas observavam de longe e decerto pensavam “essa aí deve ter aprontado poucas e boas“. Era inútil argumentar que não tinha sido culpa minha pois a minha culpa era justamente a de ser mulher, ter esta natureza imunda que corrompia até o mais indefectível dos homens que não resistiria em tocar a mulher do amigo.

A cada tentativa de aproximação ele me empurrava para trás e gritava ainda mais, inflado de ira. Seu olhar de sarcasmo e nojo nunca mais saiu de minha cabeça. Quando vejo noticiários sobre mulheres que são assassinadas por seus companheiros eu me lembro bem daquela expressão. Sem o menor esforço, recordo cada detalhe daquela noite e lembrar também daquela menina, desenxabida, aprendendo a viver por meio de lições tão desnecessárias e tão duras. Decerto o amigo dele pensou que, como eles eram brothers de longa data, tinham intimidade suficiente para compartilhar seus objetos, que era exatamente o que eu representava para ele desde o princípio. Só eu não sabia disso.

Um tempo depois deste primeiro episódio que relatei acima, discutimos sobre qualquer banalidade e ele se levantou da mesa do restaurante e simplesmente foi embora. Eu já estava tão cansada de tudo aquilo que até respirei aliviada, pensando, “enfim, acabou“. Paguei a conta, levantei da mesa e fui embora para minha casa caminhando e sentindo o ar frio da noite gelar as minhas lágrimas. Quando estava quase perto de casa ele desceu do carro de um amigo dele e me abordou pedindo desculpas pelo seu ato exagerado. Eu fingi concordar e acelerei o passo mas ele não soltava o meu braço. Dizia a ele “amanhã a gente se fala, estou cansada” na esperança de que ele me deixasse não havia acordo. Poucos metros me separavam do meu portão mas ele tinha outros planos para minha noite: outro espetáculo de agressão gratuita na madrugada, para quem quisesse ver e ouvir. Só que, dessa vez, eu reagi. Não acatei àquele repertório de quinta categoria e meti a mão na cara dele com todas as minhas forças, libertando o demônio da submissão que havia se apoderado do meu corpo desde o dia em que eu o conheci. Assustado, o amigo que o aguardava no carro fechou a porta do passageiro e se foi. Ninguém mete a colher em briga de casal, não é mesmo? O meu tapa converteu suas palavras brutas em socos, chutes e empurrões. Quando dei por mim já estava no chão, dolorida e cheia de escoriações causadas pelo muro chapiscado que amparou a minha queda.

Agora sim a noite estava no fim. Ele, que morava a alguns quarteirões do meu, seguiu a pé como se nada tivesse acontecido. Permaneci no chão alguns minutos até me recompor e finalmente chegar ao meu destino. As agressões verbais e físicas se tornaram um continuum, com cenários e plateias diferentes. Em todas elas eu era culpada por algo que eu causava. Quando eu ameaçava por um fim naquela loucura toda ele fazia questão de me transformar em um micróbio: “Você é ridícula, ninguém nunca vai te amar”, “Você acha mesmo que alguém vai te querer assim, desse jeito que você é?”, “Você é uma vergonha para a sua família, olha a sua faculdade, não está nem dando conta!”, “Você vai se arrepender e vai sofrer na pele o que fez comigo!“.

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A este ponto, você deve estar se perguntando por que eu não ia embora, por que não caía fora desse barco furado. Pois é, eu não tinha forças suficientes, na verdade, ninguém tem. Infelizmente, a maioria das mulheres que enfrentam esse tipo de situação não consegue sair disso sozinha. É preciso ajudá-las.

Se você está passando por alguma coisa parecida com isso, deve pedir ajuda a alguém antes que seja tarde. E se você conhece alguém que esteja passando maus bocados do companheiro, ofereça ajuda. É preciso dizer a estas mulheres que elas podem sim ser amadas por pessoas que as valorizem e que um RELACIONAMENTO ABUSIVO NUNCA VAI MELHORAR. Independentemente do grau da violência ou dos “métodos” do abusador, nada justifica a permanência em um relacionamento tóxico e doentio. Se o teu companheiro te transforma na pior das criaturas apenas com a forma que ele te olha ou com a forma que ele se refere a você #tambéméviolência  Eu também pensava que algum dia tudo iria mudar mas o fato é que nunca mudou. A tendência é que as coisas evoluam para pior.

No meu caso, o que, finalmente, colocou um ponto final naquela situação esdrúxula foi o meu estado deteriorado de saúde. Pesando apenas 42 kg com 1,67 de altura, tomando mais de seis tipos de medicação psiquiátrica e sem conseguir comer e dormir eu fui internada e afastada do convívio social por um tempo. Mas eu sei que poderia ter sido pior.  

Atualmente, para honrar cada dia de vida que me foi permitido viver depois de chegar ao fundo do poço de minha vida, mantenho abstinência destes “amores” infernais. Além disso, não bebo mais conhaque, não perco noites de sono e não fumo mais.

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A campanha #tambéméviolência, parceria entre a Lush Brasil e a ONG Artemis, traz um alerta para todas as mulheres.

Leia outros depoimentos de mulheres que passaram por relacionamentos abusivos nos links abaixo:

“Eu costumava achar que era louca”

Sinais de que você tem um relacionamento abusivo

Facebook: Moça, você tem um relacionamento abusivo

TAG: Relacionamentos abusivos

Eu Vivi Um Relacionamento Abusivo E Provavelmente A Maioria Das Mulheres A Sua Volta Também

Você chama isso de amor? Sobre a romantização de relacionamentos abusivos

 

 

 

 

 

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