O diálogo com os Orixás no jogo de búzios

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Depois de muitos anos de relutância, lá estava eu em uma consulta de jogo de búzios. Na verdade, nunca faltou vontade de ter ido antes, mas eu sempre soube que era preciso esperar o momento certo. Isto significava aguardar maturidade suficiente para que o contato com a força cósmica que está por trás destes simbolismos não fosse apenas para a satisfação dos meus caprichos humanos e sim, uma experiência plena.

Passado o hiato de muitos anos sem pensar muito nesse assunto, recebi o segundo convite do qual era impossível declinar. O primeiro, um tanto quanto obscuro, me meteu medo e eu declinei. Na época, eu ainda estava na faculdade – curtindo a vida adoidado – e não teria o discernimento necessário para ouvir a mensagem dos Orixás. Este novo convite veio no momento certo. Era como gotas de chuva numa terra bem seca.

Me preparei durante o dia todo, mantendo minha boca cerrada para palavras amargas e a mente bem tranquila e, na hora certa, saí à procura do endereço indicado como quem sai à caça de um tesouro e, depois de rodar e rodar ruas que eu nunca tinha passado antes, o encontrei.

Ao cruzar aquela porta, algo ficou para o lado de fora junto com os sapatos. Na pequena sala de consulta eu havia entrado como se estivesse despida de tudo. Por alguns minutos, esta sensação de “nudez” me trouxe uma certa confusão. A respiração ficou ofegante, as mãos começaram a suar e um estranho formigamento tomou conta de todo o meu corpo e eu me lembrei de Buda quando ele diz que para que possamos adentrar o sagrado devemos ser ninguém. Ninguém era exatamente o que eu era naquele instante. Absolutamente nada da carne que eu trazia. Ali, por mais surreal que pareça esta minha descrição,  eu pude confirmar que somos sim seres espirituais tendo uma experiência humana.

Enquanto aguardava o início do atendimento, meus olhos percorriam cada uma das imagens das paredes. Quando me virei, uma surpresa me deu aquela sensação gostosa de que eu devia mesmo estar ali e que era aquele o grande momento pelo qual eu havia esperado: pequenos quadros com paisagens italianas, simetricamente alinhados, faziam parte da decoração. Era a sincronicidade acontecendo diante de meus olhos, era o sinal silencioso do Universo me mostrando que tudo se encaixa quando nós estamos trilhando nosso próprio caminho! Naquele momento eu sorri. Não por acaso, uma das primeiras manifestações neste diálogo com os Orixás foi a minha viagem para a Itália que, para meu alívio (!), trazia a confirmação da experiência auspiciosa que eu viveria muitos meses depois.

As outras manifestações, de uma riqueza ímpar de detalhes, eram orientações para os outros “setores” de minha vida. De acordo com o jogo, eu havia encerrado alguns ciclos e meu caminho pessoal estava começando a tomar forma, o que para mim era muito mais que uma boa notícia já que, a esta altura, eu podia contabilizar uma porção de cicatrizes bem profundas e, histórias das quais eu não me orgulhava muito.

Uma das coisas mais curiosas que pude perceber é que o jogo realmente fala com você. Sim, existe um diálogo entre o lado de lá e o consulente. Mesmo que você seja uma pessoa cética, ou não tenha nenhuma afinidade com as religiões de matriz africana, dificilmente passará por uma consulta de jogo de búzios com indiferença. Talvez não concorde com a mística das interpretações mas ficará surpreso com a precisão dos conselhos que você receberá e poderá descobrir muitas coisas sobre si mesmo e pensar com seus botões “ahhh, então é por isso que eu sou assim / que acontece isso comigo”.

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Jogo de búzios: o oráculo de Ifá

São muitas as histórias que relatam a origem do jogo de búzios e isto pode ser assunto para outros posts. O que  se deve saber primordialmente é que esta arte divinatória está interligada aos oráculos de Ifá. O culto a Ifá refere-se à “manifestação divina em forma de palavra”, pois conta um itan (termo em yorubá que define a palavra mito) que “Ifá, quando olha com bons olhos para um homem ele se torna uma pessoa prospera em todas as direções”.

Para quem nunca teve esta experiência do jogo de búzios ele consiste no seguinte: 16 búzios (na Nação Ketu) ou 21 búzios (nas Nações Angola e Gêge) são lançados em uma toalha ou peneira (conforme a nação do Babalorixá ou Yalorixá que está jogando) e a posição em que eles caem fornecem indicações para a interpretação e a mensagem que os Orixás querem transmitir ao consulente.

 

Além de auxiliar as pessoas com relação a seus problemas, oferecendo orientações com a melhor forma de resolvê-los, o jogo de búzios também é um dos instrumentos de maior consulta dos Babalorixás e Yalorixás pois, por meio deste oráculo eles podem consultar as divindades para receber orientações na tomada de decisões de sua casa.

Deve ser consultado com muito respeito e seriedade e, sempre que seu coração estiver apertado ou você estiver precisando de um aconselhamento diante das grandes dificuldades que se apresentarem em sua vida, faça uma consulta ao jogo de búzios. Como dizem por aí: “É batata!”

 

 

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