Film Noir

 

O tempo me ensinou assim

Me respeite até chegar meu fim

Se você me der adeus não pense mais em mim

Que ficarei com Deus

(Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito)

 

Eu te amava.

Verdade.

Nem ouse

dizer

o contrário.

 

Todas as manhãs

quando

eu verificava

sua respiração

e aliviava-me

de ainda

estar vivo

refazia também

minha própria

crença

naquela vida

estúpida que

havia

me submetido.

 

Alguns de nós

tem o estranho prazer

de acreditar

nessas coisas absurdas

que se desfazem

nos ralos

dos banheiros

aonde despejamos

todo cansaço,

o suor,

as lágrimas,

os restos

do gozo

da última noite.

 

Um pouco de mim

sempre ia

ralo abaixo

e, às vezes,

era necessário

agarrar-me

nos azulejos

para não

sucumbir.

 

Na caneca,

além do café,

eu bebia também

todo amargor

de um

amor

requentado.

 

Você

sempre deixava

as chaves

mas nunca consegui

cruzar o hall

sem me arrepender

de ter partido.

 

Queria fugir,

ser exorcizada,

eletrocutada,

ou simplesmente

voar

com as pombas

imundas

que se equilibravam

no parapeito

do quinto andar.

 

Talvez

precipitar

naquela avenida

para

colorir

o cotidiano

cinzento

de sua cidade.

 

Inibia-me apenas

o fato

de ter meu

cadáver

estampado

nos jornalecos

ou impedir o trânsito

daqueles

que,

diferentemente

de mim,

ainda tinham

no que acreditar.

 

Talvez

minha sina

era teu lençol

de algodão egípcio,

com pernas

escancaradas

e gritos

roucos

abafados

nos travesseiros

que acolheram

as lágrimas

de tantas outras

mulheres.

 

Não era muito difícil

saber que tipo

de mulher

tinha sido

a última,

tão óbvias

eram as notas

do perfume

que fustigava

meu olfato.

 

Mas cada vez que adentravas

meus entremeios,

todas as mulheres

e seus perfumes baratos,

e as buzinas dos carros,

e o burburinho dos vizinhos,

e os cães do andar de cima,

e meus planos de fuga

desapareciam.

 

Entregue aos teus

sádicos caprichos

eu só conseguia repetir

para mim mesma:

“é só mais uma vez”.

 

O beijo ardente do vampiro

a moça a morrer sorrindo

éramos nós, fora do cinema,

éramos nós sem final feliz!

 

VENTURIN, Paula. “Film Noir”.

Film_Noir_by_kidspy

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