A banheira de Anna

Ao final dos dias que passava dentro de uma sala fechada com mais outros sete colegas de trabalho, congelando embaixo de um ar condicionado barulhento e ouvindo o chefe falar de metas e novas campanhas que o fariam “sair bem na foto” para o novo diretor, Anna não se importava muito em não ter uma companhia.

Na verdade, considerava muito apropriado chegar em casa às sextas-feiras, largar os sapatos logo no hall de entrada, caminhar descalça pelo corredor comprido e, ao atingir seu objetivo, não ter que se preocupar em fechar a porta para usar o sanitário. Sentia-se em paz cercada por vários cômodos e seus próprios pensamentos.

Entre os  maiores prazeres de sua solidão estava o hábito de encher a banheira até quase transbordar e manter o corpo imerso, mantendo apenas os lábios e o nariz na superfície. Podia permanecer assim por uma hora completa, em absoluto silêncio, que era rompido apenas quando Anna emergia da água como se voltasse de um transe. Então se vestia, comia alguma refeição feita às pressas e refazia-se para cumprir seu expediente naquela cidade cinzenta e caótica.

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Um dia, porém, ela aceitou a companhia de um cara que havia conhecido em um aplicativo que, às vezes, ficava zapeando por mera curiosidade. Seu nome era Kamal, um sírio de traços rústicos e olhar firme que se enternecia quando sorria. Ele havia se mudado para o Brasil há pouco mais de um ano mas já falava bem o português. Talvez o suficiente para estabelecer uma ponte até aquela mulher que, desde que pôs um fim em seu relacionamento conturbado que havia devastado sua vida.

Claro que esta aproximação não havia sido imediata. Foi preciso milhares de caracteres, pelo menos três ligações e muita insistência da parte de Kamal para que ambos se encontrassem pessoalmente. Anna não estava disposta a se envolver novamente e tinha se tornado uma verdadeira burocrata em suas relações interpessoais. Ao longo de quatro anos nos quais esteve sozinha, nunca aceitou nem mesmo as mais inocentes propostas como, por exemplo, “Bem que a gente podia marcar um café depois das seis, o que acha?” ou mesmo convites amistosos do tipo “Vai também Anna, todo mundo vai estar lá”. Nada a convencia a retomar a vida social. Preferia isolar-se nos 95 metros quadrados de seu apartamento.

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Kamal também estava sozinho e tinha suas próprias tragédias. Não como ela, dentro de um apartamento fechado, mas em um país enorme e tão longe de casa. Isto era algo que Anna não conseguia desconsiderar quando relutava em responder as mensagens daquele expatriado que havia virado a sua cabeça. E ali, enquanto repetia seu estranho ritual de manter-se paralisada e coberta de água dos pés à cabeça, percebeu que era inútil impedir aquele desejo que havia se infiltrado em seu coração. Não era mais possível continuar inerte. Queria chorar todas as lágrimas guardadas. Ressurgir dos escombros de um noivado que quase lhe custou a sanidade, gritar que ali embaixo de suas próprias ruínas ainda pulsava a vida. Anna não podia mais esperar. Saiu da banheira apressada e, ainda com as mãos molhadas, digitou rapidamente que esta noite estaria livre e que seria muito bom recebê-lo em sua casa.

Meia hora depois ele chegou. Estava vestido de forma elegante, os cabelos pretos penteados e a barba alinhada, apesar de vasta. Sem pensar muito a respeito, Anna abriu a porta e recebeu-lhe com um longo abraço no qual aconhegou seu rosto no peito de Kamal e fechou os olhos por alguns segundos. Faltaram palavras para dizer o que quer que fosse necessário. E antes mesmo que ele pudesse adentrar pela porta, beijaram-se como se já se conhecessem há décadas. Mas ela não acreditava em amor à primeira vista. Não ainda. Tinha medo de errar outra vez.

A casa estava em ordem, apesar da displicência da anfitriã. Kamal estava à vontade e revelou que a sacola que ele havia deixado no chão enquanto seus longos braços envolviam a pequena Anna continha uma garrafa de vinho e alguns kebabs que ele mesmo havia preparado. Estava aprendendo a cozinhar no restaurante de um amigo que também deixou a antiga profissão para se aventurar na gastronomia paulistana. Isto explicava o cheiro de tempero de suas mãos que fora observado por Anna quando ele acariciou o seu rosto.

Beberam. Conversaram. Beberam novamente. Anna experimentou o kebab por educação e curiosidade de conhecer as habilidades do sírio na cozinha, mas não tinha fome. Preferia outra taça de vinho e quiçá perder-se nos braços de Kamal. Olhou-o com desejo. E ele entendeu bem o recado. Tomou Anna pelos braços e deslizou seus lábios e sua língua pelo seu pescoço. Viu a pele dela arrepiar e estava cheio de desejo por aquela mulher. Entregaram-se um ao outro e amaram-se como se não houvesse amanhã. E outra vez. E mais outra. Até que dormiram exaustos de amar.

Naquela manhã Anna foi a primeira a abrir os olhos. Ainda não acreditava que estava acompanhada ou que tudo aquilo tivesse mesmo acontecido. Respirou profundamente e passou os olhos sobre Kamal. Ele era um homem grande, tinha uma pequena cicatriz no supercílio direito e seus lábios eram belos, apesar de estarem escondidos atrás da barba. Queria acariciar seu rosto mas temia que ele acordasse e se fosse e que tudo voltasse a ser como era antes. O cotidiano maçante, a cama vazia, a banheira cheia de água, o coração estanque, as ruínas. Sem conseguir conter o choro, tratou de sair logo da cama e correr para o banheiro.

Antes mesmo que pudesse conter as lágrimas, Kamal entrou pela porta e, sem a menor cerimônia por sua nudez, a beijou. E todo o ardor da noite anterior voltou a incendiar seu corpo e dar a ela uma estranha sensação de pertencimento. Se amaram na pequena banheira, que mal podia conter os dois e a água se espalhou por todo o chão do banheiro, invadiu o corredor e escorreu pelos rodapés das paredes.

Naquele momento Anna entendeu que era preciso transbordar, apesar de todas as consequências.

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