Você confiaria em um aplicativo para auxiliar nos problemas de saúde mental?

Estamos acostumados a tecnologia nos oferecendo correções para problemas da vida. Mas o crescimento dos aplicativos para afastar a doença mental esconde um buraco no acesso ao tratamento.

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De acordo com a revista Nature, existe mais de 1500 aplicativos de saúde mental. No entanto há pouquíssima pesquisa que apontem a eficácia desses apps ou até mesmo se eles podem prejudicar a recuperação. Crédito: Divulgação.

 

“Estou escrevendo esta peça sentado em um sofá que comprei através de um aplicativo, tendo chegado em casa tarde do trabalho por meio de um carro que eu solicitei com um único toque. Depois de comer a sopa que eu pedi do Seamless, levei meu cão resgatado – que eu adotei via Petfinder – para uma caminhada. Enquanto nós passeamos pelas ruas, eu escutei um podcast no meu telefone. Eu acho que eu seria chamado de “heavy user dos smartphones”, mas tenho limites: Eu ainda não passei a contar com o pequeno retângulo de vidro e metal em meu bolso para manter a minha saúde mental. Mas isso não é por falta de oportunidade.

A saúde mental é um enorme problema global. Cerca de uma a cada quatro pessoas vai experimentar alguma doença mental em suas vidas, e, embora existam muitos tipos de terapia muito eficazes, o acesso a elas é extremamente limitado, seja por causa do acesso facilitado a outros recursos, o custo ou o estigma associado ao transtorno mental. Essa doença faz com que muitas pessoas evitem procurar ajuda por medo da perda de respeito ou status. Muitas vezes é uma combinação desses fatores. A nossa abertura digital sobre tantos outros aspectos de nossas vidas – a nossa vontade de compartilhar fotos de nossa cada almoço tedioso, de procurar parceiros para satisfazer nossos caprichos sexuais, ou anunciar a nossa gravidez – ainda tem que se estender verdadeiramente para o nosso bem-estar mental.

À luz da dimensão do problema, não é surpreendente que muitas pessoas na indústria de tecnologia tenham decidido tentar a sorte mudando a cara dos cuidados de saúde mental, por meio da construção de aplicativos para ajudar a tratá-la: de acordo com a revista Nature esta semana, existe mais de 1500. No entanto, poucas pesquisas foram feitas para medir a eficácia destes aplicativos, e há pouquíssima informação sobre o que poderia ajudar e o que poderia até mesmo prejudicar a recuperação.

Algumas pesquisas têm mostrado que as pessoas consideradas heavy user de smartphones tem mais probabilidade de sofrer depressão que as que não são usuárias. E eu estou inclinado a pensar que, enquanto um aplicativo bem feito pode desempenhar um papel no longo processo de gerenciar a doença mental – por exemplo, em manter um registro de comportamento que possa sinalizar sintomas exacerbados, ou ajudar com meditação – um telefone nunca será um substituto para o apoio e a segurança oferecida por pessoas reais.

A doença mental é uma aflição do isolamento: as pessoas que sofrem de depressão, ansiedade e outros problemas de saúde muitas vezes não são muito agradáveis para passar o tempo com outras pessoas. (No auge do desespero, eu sei que eu não sou um companheiro agradável.) É uma ironia terrível, já que as pessoas que sofrem de problemas de saúde mental precisam do apoio mais que a maioria. Não só precisamos aumentar o acesso às pessoas para o tratamento da saúde mental. Nós também temos que repensar como estamos sendo educados sobre a saúde mental, e o grau em que estamos ajudando as pessoas que estão lutando contra uma doença mental tem de ser considerado como uma responsabilidade coletiva. Apesar disso ainda ser considerado como um embaraço, um tópico a ser evitado, exceto entre os próprios confidentes mais próximos.

Nós somos protetores, com razão, quando alguém adoece com câncer – uma doença que cerca de um terço das pessoas ainda irão sofrer – mas nós andamos em marcha à ré quando se trata de uma doença mental. Para ajudar verdadeiramente as pessoas a conseguirem se recuperar, ou pelo menos gerenciar seus problemas, precisamos considerar a saúde mental como uma epidemia comunitária. Talvez alguns aplicativos possam contribuir para isso. Mas na verdade, são seres humanos que farão a parte mais importante. Muitas vezes as pessoas me dizem que eu sou valente quando escrevo sobre minhas experiências com a depressão, e isso vem dos mais lugares mais amáveis. Mas eu gostaria de viver em uma sociedade em que não é nem valentia e nem inesperado discutir sobre saúde mental: onde o apoio pronto de humanos signifique que esta é uma área em que nós não temos que estar com nossos telefones na esperança de encontrar uma cura.”

*Texto de Jean Hannah Edelstein / Traduzido do site de notícias “The Guardian”, por Paula Venturin.

 

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