A cura que vem da terra

image

A horta e o pomar dos meus avós sempre foram uma verdadeira farmácia viva. Dali saíam ervas e verduras fresquinhas, cultivadas apenas com amor e calda de fumo de corda, usada para afastar as pragas. Daquele espaço de abundante verde vinham deliciosas frutas colhidas do pé e remédios para todos os males.

Para cicatrizar cortes profundos, a seiva do bálsamo-do-peru (Myroxilon peruiferum) era quase que uma mágica. Se minha avó acidentalmente se cortava com faca, ela corria logo no arbusto de flores vermelhas e estreladas que havia crescido rente ao muro, quebrava o talo de uma das folhas e aplicava a seiva no ferimento. Em poucos minutos a pele parecia estar ‘colada’ e nada mais de sangramento.

O bálsamo-de-jardim (Cotyledon orbiculata L), uma pequena suculenta que crescia à sombra, era bom para queimaduras e melhorava perturbações do estômago e da úlcera.

O boldo era tiro e queda para os excessos. Macerado com água gelada, controlava o enjôo e a queimação.

A berinjela virava um suco que baixava o colesterol e a beterraba virava xarope contra anemia e fraqueza: acrescida de açúcar e um pouco de água, era deixada ao sereno atrás da casa, da noite para o dia. Ambos eram feitos à noite, para serem tomados logo pela manhã.

image

Segundo minha avó, as sementes da abóbora esmagadas e tomadas com leite eram ‘batata’ na eliminação dos vermes. Por sorte eu nunca precisei usar a abóbora para este fim mas imagino quão importante foi esta solução para moradores de áreas sem saneamento e com poucas condições financeiras.

O hortelã também era muito recomendado para indigestão e intoxicação alimentar. Na forma de chá aliviava dor de barriga e cólicas. Este sim eu usei várias vezes e confesso que ainda mantenho algumas reservas ao uso do hortelã, não por desconfiar da eficácia de suas propriedades mas sim por ter associado o seu gosto aos terríveis episódios de infecção gastrointestinal que tive na infância r também na idade adulta. Coisas da vida…

A unanimidade para os males de crianças pequenas e bebês, na sabedoria popular compartilhada pelos meus avós, era a camomila. Isto sem falar nos poderes da erva-cidreira, para acalmar os nervos, e a erva-doce, para os gases dos bebês. Não havia cólica, agitação ou nervosismo que não cedessem a um pouco de chá e uma boa dose de acalento.

E a babosa, então? Que santo remédio para queimaduras de sol, acidentes com o fogo. Além disso, era usada junto com o abacate para dar um brilho extra aos cabelos, amaciar e evitar a queda.

O agrião que dava um toque picante às saladas, também curava a tosse persistente quando era transformado em um xarope feito com mel, folhas de guaco (Milkania glomerata) e uma pitadinha de cravo. Tomado de manhã e à noite, acabava com a tosse em poucos dias. Alecrim com poejo, canela, cravo e dois dentes de alho levavam embora todo o mal estar da gripe.

Entre a cebolinha e a salsa cresciam pés e mais pés de erva-de-santa-maria (Chenopodium ambrosioides). Resistentes, se multiplicavam rápido e podiam facilmente serem confundidos com erva daninha. Mas meu avô os conhecia bem e sabia que aquelas folhas de forte odor eram uma verdadeira maravilha para curar entorses, contusões e reverter inchaços, quando maceradas com sal e vinagre e aplicado em forma de cataplasma. Anos depois descobri também que esta planta era muito eficaz para afastar pulgas e carrapatos e já utilizar várias vezes o seu chá para dar banho em meus gatos.

Tinha uma outra planta que era viçosa mas pouco usada: a losna (Arthemisia absinthum). Apesar de ser muitas finalidades medicinais sua fama de ser abortiva, causar alucinações ou ser tóxica a crianças fez com que fosse logo arrancada, já que era considerada perigosa. Melhor assim, já que seu gosto era amargo como fel.

Além das variedades curativas, havia também as ervas aromáticas. A estas cabia a função de fazer bem para a alma. Colher qualquer uma delas significava que algo delicioso seria preparado.

Minha maior alegria era preparar uma pizza em casa, salpicar oregano fresco sobre ela e levar ao forno. Aquelas folhinhas pequeninas e aveludadas quando frescas são incomparáveis em sabor e aroma. Tanto que nunca mais vi graça nenhuma no orégano desidratado que vendem por aí.

O mesmo ocorre com o manjericão, o tomilho, a manjerona… Quem tem essas ervas em casa sabe bem o que eu estou falando. Todo prato, do mais simples ao mais sofisticado, parece ganhar ainda mais vida.

Por isso jamais consegui ficar longe de um pedacinho de terra cultivada, por mais pequeno que fosse. Ainda que fosse um jardim com algumas ervas plantadas ou mesmo um vasinho.

Um dos maiores tesouros que meus avós tem me transmitido ao longo de todos esses anos é que a saúde, em seu significado integral, não está nas facilidades da vida que temos no concreto e nem nas caixinhas de remédio e sim no solo do qual viemos e para o qual voltaremos algum dia.

image
 
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s