Bullying

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Quando eu era criança não se falava em bullying. Os pais da minha geração estavam tão empenhados em garantir uma vida minimamente confortável em meio às instabilidades de uma economia em transição que entre as suas preocupações cotidianas não havia espaço para se falar deste comportamento tão comum entre as crianças em fase escolar.

Mas o bullying já existia na década de 90. Na forma de bilhetinhos passados de mãos em mãos, piadinhas sem graça, agressões verbais e físicas. O “gordinho”, a “baixinha”, a “magrela”, o “menino mais alto da turma”, o “caipira”, o “da Cohab”, o “pretinho”, entre outros, eram alvo certeiro dos bullies. O motivo (se é que existe algum motivo para se atacar alguém): nenhum. Bastava ser diferente do padrão de conformidade das crianças médias para estar vulnerável ao escárnio.

Eu era a magrela, apelidada ironicamente de Paula Ventania Praga. Primeiro porque meu sobrenome, Venturin Braga, não era comum naquela região e, segundo, porque a grande graça de zoar com a minha cara era dizer que o vento um dia ainda iria me carregar. E eu morria de ódio disso. Culpa da infância, que não quis me deixar tão cedo: aos 12 anos eu ainda não tinha quase nenhum prenúncio da mulher que eu viria a ser.

Bastava passar nos corredores ou transitar pelo pátio para que a paranoia de estar sendo vigiada se instalasse. Eu imaginava as outras alunas rindo de mim pelas costas e os meninos considerados bonitos fazendo cara de nojo.

O recreio e os minutos que o antecediam eram uma verdadeira tortura psicológica. Como se não bastasse ser um dos objetos de chacota de minha turma (e eu não era a única) ainda tinha de enfrentar os alunos de outras séries que reproduziam o mesmo comportamento hostil com aqueles que destoavam do bando.

Este era o caso de três meninas mais velhas que me xingavam gratuitamente toda vez que eu descia as escadas para a hora do lanche. Uma vez tive o azar de rebater a provocação de uma delas, dizendo que que ela é quem era a esquisita, com aquele “cabelo engordurado sujo“. Digo que foi um azar pelo simples fato de que havia uma definição quase hierárquica entre os bolinadores e os bolinados. Transpor esta linha imaginária era o mesmo que pedir para ser agredido, afinal, “quem mandou não ficar quietinha”. Ninguém se metia nessas confusões que vez ou outra ocorriam mas formava-se uma espécie de plateia para ver quem iria levar a pior. Os professores também pareciam não se incomodar nenhum pouco. Não era raro que o bolinado fosse parar na diretoria juntamente com seu bolinador por estarem “causando tumulto“. 

O meu episódio de “rebeldia” em não aceitar o bullying resultou em um belo soco que me rendeu um corte profundo na maçã do rosto, causado por um anel pontiagudo. A maior dor, no entanto, foi a vergonha de ser apontada por semanas a fio como a “menina que levou um soco da fulana” e ainda ter que explicar a meus pais porque tinha acontecido tudo aquilo.

O lado mais cruel – e nada cômico – do bullying é que quase sempre o agredido não sente raiva dos seus agressores e sim de si mesmo, por “não ser normal, igual a todo mundo”. A partir daí ele começa a negar sua realidade enquanto ser único que é e passa a querer se igualar aos demais, na esperança de tornar-se aceito. Não é raro que as vítimas passem a ser os próximos algozes, perpetuando este tipo de violência, e que se esqueçam de algo fundamental: que somos todos únicos e incomparáveis

Eu mesma me esqueci desta verdade várias vezes no decorrer dos anos. Qualquer acontecimento desgosto que me ocorria trazia consigo o seguintes pensamentos: “o que eu fiz de errado?“, “o que há de errado comigo?”. E eu vasculhava tudo o que podia para encontrar defeitos, dentro e fora de mim.

Isto foi tão marcante em meu percurso rumo à idade adulta que eu não imaginava que ainda poderia ter algum efeito sobre mim hoje em dia. Mas tinha. E a confirmação veio no final do ano passado quando minha mãe me contou que, ao buscar meu filho na escolinha, flagrou um dos coleguinhas chamando-o de Julieta. De repente, senti o meu sangue em ebulição e gritei:

-Da próxima vez que isso acontecer, Romeo, você vai mandar esse menino ir tomar no &%! E quero ver quem é que irá me chamar na escola para conversar sobre isso! Pode avisar sua professora que eu só estou esperando ela me chamar. Isso é coisa de adulto que fica incentivando esse tipo de brincadeira ridícula, essas ideias não partem da cabeça de uma criança de apenas seis anos – esbravejei.

Minha mãe olhou espantada, afinal, eu não havia me dado conta do absurdo que estava instruindo meu filho a dizer. E um longo silêncio precedeu aquele rompante de raiva. Os meus sentimentos se alternavam entre a raiva e o medo. Horas depois, um pouco mais calma e sensata o chamei novamente e disse:

Não liga pra isso não. Sabe por que esse menino está te chamando de Julieta? Porque além dele ser um bocó ele está com inveja do nome bonito e diferente que você tem. Quando alguém vier encher teu saco com essas piadinhas, não esquenta não, viu.

Eu sei, mãe, eu sei. Está tudo bem.

Enquanto ele retomava o jogo em seu video game, eu retomava os meus afazeres e com um nó na garganta repetia sua resposta mentalmente, como um mantra:

Está tudo bem… está tudo bem… está tudo bem…

 

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