Quinquilharias

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Sempre fui perita em acumular quinquilharias. Tenho tanta consciência desta minha habilidade, que de uns tempos pra cá, tenho tentado me manter bem longe das feiras de antiguidade ou artesanatos regionais, papelarias, livrarias, perfumarias, lojas de acessórios femininos e também aquelas lojas de artigos de decoração ou utilidades  ̶e̶ ̶i̶n̶u̶t̶i̶l̶i̶d̶a̶d̶e̶s̶ ̶t̶a̶m̶b̶é̶m̶ ̶ para a casa. Confesso que nem sempre consigo e esses dias mesmo eu acabei trazendo uma escova de lavar louça em formato de flor para casa. O lado bom é que ela funciona, ao menos não ficará na pia apenas como enfeite.

Por algum motivo desconhecido, tudo em minha vida acaba virando uma coleção. As primeiras Kokeshi que comprei na Liberdade agora compõem uma uma família de bonequinhas vindas de vários outros lugares, inclusive de seu país de origem, o Japão. O mesmo se repete com relação aos papéis de origami, adesivos e Maneki Neko – gatinhos asiáticos conhecidos por trazer sorte e fortuna a quem os tem em casa ou no comércio – . Canetas de ponta fina também parecem procriar, bem como as canetas promocionais que ganho em feiras comerciais, de fornecedores ou clientes. Estas não me demoro muito em passar adiante pois definitivamente detesto brindes promocionais. Cristais, conchas e botões transbordam às centenas. Colares se enroscam nos cabides. Esmaltes e batons em cores diversas e seus vários tons. Brincos, anéis, sapatos, livros, adesivos, post-its,  potes plásticos, cosméticos, perfumes, remédios, ímãs de geladeira, dvds, bilhetes, folders, cartões de visita, ingressos de shows, mapas, guias de museu, entre outras coisas que, de repente, ganharam uma variedade inexplicável.

Isto também me ocorre no campo da intangibilidade. As histórias da infância e da vida que passa, pessoas que tenho encontrado, gestos, porres inesquecíveis, sorrisos frouxos, lágrimas doloridas, palavras e músicas, impressões que ficaram, paixões, sonhos, cidades em que morei e viagens que fiz, se acumularam nas gavetas de minha alma. Guardei também os sapos que não engoli e, amontoadas num canto escuro e empoeirado, as mágoas e as mentiras amareladas, juntamente com aquela sensação de que não deveria ter tido o que disse ou de não ter dito o que eu queria dizer. Mas, no meio desta bagunça sem fim, uma série de “causos” engraçados e memoráveis.

Penso que a vida seja feita destas miudezas; pequenas coisinhas que vamos juntando ao longo do tempo em um estranho colecionismo que nos impede de fechar nossas portas e gavetas. É sobre elas que escrevo, na tentativa de colocar um pouco de ordem na vida ou de compreender algum dia o caos de minha existência.

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